quarta-feira, 5 de março de 2008

Bom Dia



Recomendo altamente esse filme bastante delicado do Ozu, um dos mestres supremos do cinema japonês (senão o maior deles). Saiu em dvd (daquelas edições piratas da magnus opus q a gente ama) faz um tempo já e deve estar mofando em muita locadora por aí, e muito injustamente (claro).
A sinopse na capa do dvd, apesar de estar certa, engana quem não conhece o filme. Sim, depois que foram proibidos de frequentar a casa de vizinhos pra ver o campeonato de luta livre, dois irmãos dum bairro suburbano de Tóquio fazem greve de silêncio para que seus pais comprem uma tevê. Mas isso não é o principal do filme, tanto que demora mais ou menos uns 40 minutos pra essa situação começar a acontecer mesmo (o q seria impensável num filme "normal", q a sua "história" só comece depois da metade do filme). O q interessa mesmo é a maneira como a famosa câmera de Ozu vai retratando de forma muito íntima e carinhosa o cotidiano daquelas pessoas, q está prestes a mudar com a modernização do Japão - o filme retrata aquela traumática passagem (de forma nada traumática, diga-se de passagem -- q trocadilho infame!) do Japão pós-guerra, em q os antigos costumes foram sendo substituídos por uma modernização vinda do exterior.


De forma carinhosa, mas ácida. Ozu não deixa passar batida nenhuma chance q tem de criticar as mudanças q ocorriam (o filme é do final da década de 50), e diz com todas as letras q a televisão é uma merda mesmo. E daquele jeito inteligente e bem humorado q é sempre bom ver - até porque não falta hj em dia os malas do "vale tudo" e do "povo consome o q quer, e vê o q quer, eles q escolhem" q defendem a televisão como se telenovela não fosse realmente uma maneira daqui ó (pega na orelha) de deixar todo mundo burro e calminho (cutucando onça com vara curta).
A beleza do filme está toda em sua simplicidade. A montagem precisa e limpa, as atuações tão próximas da realidade q são capazes de fazer o espectador esquecer q está vendo gente atuar (ao contrário de muita choradeira e estrelas mutantes devidamente oscarizadas - eu tô q tô hj!).
E, claro, o olhar do tatame, aquele q vem de baixo. Sim, o famoso ângulo q Ozu adotou e q o diferencia de todo mundo. Quem mais é capaz de filmar daquele jeito? Sinceramente, ninguém. É muito fácil botar uma câmera de baixo pra cima, ter uma pessoa autoritária gritando e transmitir a idéia de semi-deus q se quer passar pro público (o George Lucas entendeu isso direitinho e tá lá, pergunta pra qualquer nerd de verdade se o Darth Vader é flor q se cheire - não vale lembrar do sem graça q faz o papel na trilogia mais nova, blé). Agora, tô pra ver alguém conseguir transmitir um olhar tão especial de maneira tão direta e tocante. É tão bonito q só se pode comparar com a própria vida - e tem algo pelo qual as pessoas passam mais batido do q a própria vida? (um pouco de filosofia pseudo-oriental não faz mal a ninguém)


Então se vc se cansou de grandes planos ululantes, de extravagâncias cheeeias de significado e roteiros fajutos sobre meninas q não calam a boca e q só servem pra fazer as titias chorarem (libere a titia em vc, não tenha medo!), não tenha medo e alugue. Ozu vai se sentar ao seu lado no tatame e conversar com vc de maneira sincera, gentil e honesta, e se vc der ouvidos a ele e estiver disposto a trocar figurinhas (tô falando pra liberar a titia, vai me dizer q vc não tem nenhuma q fala assim...) de igual pra igual, nunca mais vai se esquecer daquilo q vcs falaram um pro outro.
E bons dias pra todo mundo.

2 comentários:

Geo Euzebio disse...

teu texto me fez querer conversar com Ozu.
(sobe uma placa dizendo: FUI À LOCADORA)

Carlos Norcia disse...

Ahahah

Vc não vai se arrepender, cara. Bom Dia é muito, muito bom.