Leio O Filme Noir, de Patrick Brion, cartapácio de 450 páginas sobre o que o autor chama de “A idade de ouro do filme policial americano, de Alfred Hitchcock a Nicholas Ray”. Ele analisa 82 filmes, contando várias fofocas de bastidores. A lista começa com Rebecca (1940), de Hitch, e vai até A Bela dos Bas-Fond (Party Girl, 1958), de Ray, como diz o subtítulo do livro.
Ele pára sua análise antes dos anos 60 porque, segundo Brion, o filme noir teria entrado em decadência a partir daí, apesar de admitir haver vários grandes filmes noir a partir dessa data. Ele disse querer se concentrar no auge.
O mais interessante é uma exaustiva lista que ele publicou logo no início da obra levantando TODOS os filmes noir do período. Ele os dividiu em três colunas: “os filmes noir” (os propriamente ditos), “em torno do filme noir” (tinham temas de crime, morte e sedução, mas não se alinhavam na estética) e “outros títulos” (filmes que foram influenciados pelos noir).
A terceira lista, por vezes hilária, tem filmes como Cidadão Kane, Bambi, O Grande Ditador. A segunda vai de Casablanca, O Retrato de Dorian Gray e O Homem que Sabia Demais.
A preciosíssima lista de todos os 203 filmes noir clássicos vem recheada da ficha técnica completa, várias informações curiosas, inúmeras fotos, biografia dos atores etc. Nos 82 selecionados como mais importantes pelo autor, análises curtas de 2 páginas até pequenos ensaios de 10 páginas, dependendo do gosto particular do autor.
Tudo saboroso, escrito sem nenhuma arrogância, sem fugir de nenhum assunto – por exemplo, traz uma frase da Veronika Lake reclamando que a figurinista Edith Head, bissexual assumida, beliscava a bunda as atrizes durante as provas de figurino.
Não resisti e segue a lista dos 82 filmes selecionados por Patrick Brion. Só Hollywood, infelizmente.
1940
Rebecca, a Mulher Inesquecível (Rebecca) Alfred Hitchcock
1941
O Falcão Maltês/Relíquia Macabra (The Maltese Falcon) John Huston
O Último Refúgio (High Sierra) Raoul Wash
Fúria no Céu (Rage in Heaven) W. S. Van Dyke II
Suspeita (Suspicion) Alfred Hitchcock
Quem Matou Vicki? (I Wake up Screaming) H. Bruce Humberstone
Estrada Proibida (Johnny Eager) Mervyn Leroy
1942
Capitulou Sorrindo (The Glass Key) Stuart Heisler
A Sombra de um Dúvida (Shadow of a Doubt) Alfred Hitchcock
1943
Quem Matou Quem? (Who Killed Who?) Tex Avery
A Dama Fantasma (Phantom Lady) Robert Siodmak
1944
Pacto de Sangue (Double Indemnity) Billy Wilder
Laura (Laura) Otto Preminger
Trilhos Sinistros (Murder, My Sweet) Edward Dmytryk
Um Retrato de Mulher (The Woman in the Window) Fritz Lang
The Strange Affair of Uncle Harry Robert Siodmak
1945
Alma em Suplício (Mildred Pierce) Michael Curtiz
Curva do Destino (Detour) Edgar G. Ulmer
Quando Fala o Coração (Spellbound) Alfred Hitchcock
Amar foi minha Ruína (Leave Her to Heaven) John M. Stahl
Anjo ou Demônio (Fallen Angel) Otto Preminger
1946
Três Desconhecidos (Three Strangers) Jean Negulesco
Gilda (Gilda) Charles Vidor
O Destino Bate a sua Porta (The Postman Always Rings Twice) Tay Garnett
Envolto nas Sombras (The Dark Corner) Henry Hathaway
A Dália Azul (The Blue Dahlia) George Marshall
Uma Aventura na Noite (Somewhere in the Night) Joseph L. Mankiewicz
Os Assassinos (The Killers) Robert Siodmak
À Beira do Abismo (The Big Sleep) Howard Hawks
Espelhos d’Alma (The Dark Mirror) Robert Siodmak
Correntes Ocultas (Undercurrent) Vincente Minnelli
A Dama do Lago (Lady in the Lake) Robert Montgomery
1947
O Beijo da Morte (Kiss of Death) Henry Hathaway
Prisioneiro do Passado (Dark Passage) Delmer Daves
Sem Sombra de Suspeita (The Unsuspected) Michael Curtiz
O Beco das Ilusões Perdidas (Nightmare Alley) Edmund Goulding
Fuga do Passado (Out of the Past) Jacques Tourneur
O Segredo atrás da Porta (Secret Beyond the Door) Fritz Lang
1948
Cidade Nua (The Naked City) Jules Dassin
A Dama de Shanghai (The Lady from Shanghai) Orson Welles
Rua sem Nome (The Street with no Name) William Keighley
Paixões em Fúria (Key Largo) John Huston
Uma Vida Marcada (Cry of the City) Robert Siodmak
A Taverna do Caminho (Road House) Jean Negulesco
A Força do Mal (Force of Evil) Abraham Polonsky
Baixeza (Criss Cross) Robert Siodmak
1949
Shockproof Douglas Sirk
Ninguém Crê em Mim (The Window) Ted Tetzlaff
Fúria Sanguinária (White Heat) Raoul Walsh
Amarga Esperança (They Live by Night) Nicholas Ray
A Ladra (Whirlpool) Otto Preminger
Pecado sem Mácula (Side Street) Anthony Mann
Maldição (House by the River) Fritz Lang
1950
Pavor nos Bastidores (Stage Fright) Alfred Hitchcock
O Segredo das Jóias (The Asphalt Jungle) John Houston
Sombras do Mal (Night and the City) Jules Dassin
Passos na Noite (Where the Sidewalk Ends) Otto Preminger
Mortalmente Perigosa (Gun Crazy) Joseph H. Lewis
O Cúmplice das Sombras (The Prowler) Joseph Losey
1951
Pacto Sinistro (Strangers on a Train) Alfred Hitchcock
Por Amor também se Mata (He Ran all the Way) John Berry
Torrente de Paixão (Niagara) Henry Hathaway
1953
Alma em Pânico (Angel Face) Otto Preminger
Os Corruptos (The Big Heat) Fritz Lang
Disque M para Matar (Dial M for Murder) Alfred Hitchcock
1954
A Morte Espera no 322 (Pushover) Richard Quine
Janela Indiscreta (Rear Window) Alfred Hitchcock
Pecado e Redenção (Rogue Cop) Roy Rowland
O Império do Crime (The Big Combo) Joseph H. Lewis
1955
Sábado Trágico (Violent Saturday) Richard Fleischer
O Beijo Fatal (Kiss me Deadly) Robert Aldrich
O Mensageiro do Diabo (The Night of the Hunter) Charles Laughton
O Poder do Ódio (Slightly Scarlet) Allan Dwan
1956
No Silêncio de um Cidade (While the City Sleeps) Fritz Lang
O Grande Golpe (The Killing) Stanley Kubrick
Suplício de uma Alma (Beyond a Reasonable Doubt) Fritz Lang
Ao Cair da Noite (Nightfall) Jacques Tourneur
1957
Honra de um Ladrão (The Burglar) Paul Wendkos
A Marca da Maldade (Touch of Evil) Orson Welles
1958
Um Grito de Terror (Cry Terror!) Andrew L. Stone
Um Corpo que Cai (Vertigo) Alfred Hitchcock
A Bela do Bas-Fond (Party Girl) Nicholas Ray
segunda-feira, 31 de março de 2008
Quando a coisa ficou preta
terça-feira, 25 de março de 2008
Ennio Morricone
Ontem à noite, fui ver o concerto regido pelo Ennio Morricone, no Teatro Alfa, em São Paulo. Apresentação única. Ingressos com preços pela hora da morte. Estavam presentes alguns colunáveis, políticos (vi o Guilherme Afif) e gente do meio musical (tenho quase certeza de ter visto o maestro Júlio Medaglia). Enfim, o beautiful people da capital paulistana.
Mas e o show? Bem, sou suspeito pra falar. Lembro de passar horas escutando as trilhas do Morricone, seja durante os estudos ou no rádio do carro. Lembro de rever alguns trechos dos filmes do Sérgio Leone só pra ouvir a música. Não sei quantas vezes já devo ter visto Era uma Vez no Oeste e Era uma Vez na América. Muito dessa minha paixão vem por causa da trilha. Em Era uma Vez no Oeste não esqueço de seqüências como a da entrada do Henry Fonda no filme (“Agora que me chamou pelo nome...”), a da chegada da Claudia Cardinali na estação de trem e do duelo entre o Charles Bronson e Henry Fonda já mais no final. Em Era Uma Vez na América, não me sai da cabeça o Robert De Niro retirando uma laje da parede, relembrando as escapulidas que dava, quando criança, para ver sua amada Deborah dançar ao som de Amapola (a personagem era vivida por uma jovem Jenniffer Connelly na fase adolescente e pela Elizabeth Montgomery, na fase adulta). Sua parceria com o Giuseppe Tornatore também é um espetáculo. O tema de amor de Cinema Paradiso e o tema principal de A Lenda do Pianista do Mar, são maravilhosos.
Morricone é mais conhecido do grande público por sua trilha de A Missão. O filme que chegou a conquistar a Palma de Ouro em Cannes e foi indicado para uma penca de Oscars. Para o meu gosto, A Missão perdeu muito do seu brilho com o passar do anos (como aliás, quase todos os filmes do Rolland Joffé). É uma belíssima trilha, sem dúvida. Melhor que a de Por Volta da Meia-Noite, que acabou, vai entender o porquê, vencendo o Oscar naquele ano. Mas ainda prefiro as trilha que o Morricone compôs para os faroestes do Leone, para os filmes políticos italianos dos anos 70 (Investigação de um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, A Classe Operária vai ao Paraíso, Queimada e Sacco e Vanzetti) e as três que compôs para os filmes do De Palma (Os Intocáveis, Pecados de Guerra e Missão: Marte).
No espetáculo de ontem (que começou com meia hora de atraso), Morricone abriu com o tema inicial de Os Intocáveis, aquele que toca durante os créditos. Prosseguiu com o belo e épico tema de A Lenda do Pianista do Mar (receio que esse filme não resista a uma reavaliação). Depois, Cinema Paradiso e Malena (outra trilha de Morricone que supera o próprio filme). A melhor parte veio com a apresentação da soprano que o acompanha em todos os shows (cujo nome, agora, me foge). Morricone tocou o tema principal de Três Homens em Conflito (lembrado por todos como o do cigarros Camel), Era Uma Vez no Oeste, Quando Explode a Vingança (talvez a minha preferida) e fechou com Êxtase do Ouro, música mais conhecida de Três Homens em Conflito. Foi um show!
Na volta do intervalo, a programação escolhida era sensivelmente inferior. Ouvimos a trilha de Marco Pólo (desconheço esse filme), Pecados de Guerra, a canção tema de Sacco e Vanzetti e de Queimada (essas duas com o auxílio de um coral brasileiro). O concerto foi encerrado com três partituras de A Missão.
Pra não perder o costume, o público pediu bis e Morricone nos atendeu por três vezes. Claro que era tudo combinado. Nem a orquestra saía de sua posição, nem o Morricone levava suas partituras embora. Todo mundo sabia quando e se ele voltaria para mais um bis. De um modo geral, no entanto, a platéia reagiu de uma forma um pouco fria ao espetáculo. Pelos vídeos que vi do show do Morricone no Rio de Janeiro, a impressão que tive foi completamente diferente. Aplausos efusivos, gritaria, exigiram que o Morricone bisasse mais vezes do que estava programado. Acho que isso vem da própria característica do paulistano, mais racional, menos emotivo que o carioca. Não duvido nada que muitos dos presentes nem eram fãs da obra do Morricone. Estavam por lá mais preocupados em tirar fotos para as revistas de fofoca do qualquer outra coisa.
Como eu não tenho nada a ver com isso, hoje posso dizer que, ao menos uma vez na vida, consegui ver o Morricone ao vivo. Pra quem curte cinema e trilha sonora em especial (e não sei como é possível não gostar das duas coisas ao mesmo tempo), Morricone é programa imperdível. Tenho quase certeza que para os entendidos em música, sua obra seja considerada de segunda linha, uma espécie de "sertanejo da música erudita" (é provável que que todos os compositores de trilhas sonora para cinema sejam vistos com olhos tortos pelos demais colegas, seja o próprio Morricone, John Williams, Bernard Herrmann, Jerry Goldsmith, John Barry, Nino Rota etc. etc. etc.). Como não sou um expert em música, guardo o nome e as trilhas de Morricone como umas das minhas grandes paixões no cinema.
Assim como a noite de ontem.
segunda-feira, 24 de março de 2008
Carrie, A Estranha

Carrie é um daqueles filmes com os quais tenho uma relação tão próxima que, hoje, anos depois de tê-lo visto pela primeira vez, tenho enorme dificuldade de analisá-los friamente. Geralmente tenho esse sentimento os filmes feitos no início da década de 80, quando eu começava a me interessar por cinema. Não me peçam, portanto, pra escrever sobre Os Caçadores da Arca Perdida, ET, De Volta para o Futuro, O Feitiço de Áquila, Doublê de Corpo etc. etc. Mesmo vendo claramente os defeitos de cada um deles, permaneço com a visão idealizada lá de trás.
Com Carrie é a mesma coisa. São tantas as cenas que sei de cor, que tenho a tendência de esquecer suas falhas. Revendo-o agora, fica nítida a falta de motivação de alguns personagens (por mais que a personagem da Amy Irving arrependida pelo que fez com a Carrie na seqüência inicial da menstruação, ela nunca abriria mão de ir ao baile e do namorado); a fragilidade das interpretações (a dupla Nancy Allen e do John Travolta parecem amadores e a Piper Laurie dá um show de super-representação); o final abrupto e de certa forma incoerente. Em certos momentos, Carrie lembra um terror B.
Mas o que fica de Carrie é a maestria do DePalma. Sua capacidade de manipular o espectador é impressionante. Seu trabalho de câmera é invejável. Toda a cena do baile ainda hoje impressiona. A entrada de Carrie no salão. A dança com a câmera girando ao redor do casal Carrie e Tommy Ross. Mas nada supera o longo movimento de câmera em que De Palma revela qual o destino que está preparado para a protagonista. A câmera sai da mesa da Carrie, acompanha lateralmente uma das personagens que traz em suas mãos os votos para o rei e a rainha do baile, prossegue com ela entregando os papéis para a comissão julgadora, continua ainda lateralmente mostrando agora uma corda presa à estrutura do palco, repentinamente ela inicia um movimento vertical e vai buscar o balde contendo o sangue de porco, logo acima desse mesmo palco. DePalma realmente já foi grande um dia.
Por traz do verniz de terror, Carrie toca ainda no tema da necessidade de sermos vistos e aceitos pelos outros, da nossa sensação de sermos diferentes dos demais e, por isso mesmo, não estarmos inserido no contexto. A cena inicial da quadra de voley e do banho, quando Carrie tem sua primeira menstruação, retratam bem esse sentimento.
Aliados a outras virtudes (a interpretação de Sissy Spacek e a trilha sonora do pouco valorizado Pino Donaggio), Carrie permanece com um lugar reservado entre meus filmes de terror preferidos.
domingo, 23 de março de 2008
Hey, Jude!
Estava eu em minha aula de cinema mundial essa semana, ouvindo atentamente a aula sobre Victor Fleming, Selznick e O Vento Levou, quando meu cérebro associou Fleming a O Mágico de Oz e, conseqüentemente à figura de Judy Garland.
Garland, de vida conturbadíssima (conheço algo sobre ela graças ao Felipe Tostes, grande conhecedor garlandeano), entregou das maiores atuações que eu já assisti no primeiro remake de Nasce uma Estrela, dirigido por George Cukor.
O filme é muito acidentado, tem problemas graves de ritmo, mas deve ser visto ainda por quem não teve o privilégio por causa da entrega magistral de Garland ao papel, sua sobrevida, seu renascimento na indústria naquela década de 50. Um papel que lhe deu uma indicação ao Oscar, que imerecidamente foi parar nas mãos da Grace Kelly, uma daquelas injustiças inesquecíveis.
Aproveito então para postar um trechinho do filme. Um trechinho não, O trecho do filme, sensacional, "The Man That Got Away". É de partir o coração, principalmente por causa de todas as associações que acabamos fazendo entre ficção e realidade.
sábado, 22 de março de 2008
Novidades da próxima versão do site
- nos perfis, ícones prateados do Oscar, igual ao dourado, para indicações;
- central de usuários (nossa grande novidade, não vou entrar em muitos detalhes neste momento);
- na página da equipe, link para o perfil completo do editor (filmes favoritos, notas, comentários, etc.);
- inclusão de smiley no fórum do site;
- índice alfabético de palavras-chave, um local para centralizar as já mais de 200 palavras-chave cadastradas no site;
- melhoria na compatibilidade com o browser Safari 3.1, da Apple.
Isso e outras novidades menores estarão disponíveis até maio. Fique ligado!
Nazi
Revendo Roma, Cidade Aberta, termino o filme com uma imagem positiva dos nazistas e dos fascistas. Foram os únicos que tiveram a coragem de por um fim na gritaria de Ana Magnani. Quem faz calar Ana Magnani não pode ser de todo mau sujeito.Toda vez que um filme tem a atriz no elenco, eu abaixo o volume um pouco, pois sei que pelo menos uns três gritos ela vai soltar, além de choros compulsivos, ataques histéricos, rodadas à baiana e quiçá até pomba-gira desce nela.
Em Roma, Cidade Aberta, o rançoso filme de Roberto Rosselini (nunca entendi porque levam em consideção essa missa proselitista), enquanto os homens eram levados presos, as mulheres e crianças viam em silêncio, pois nada havia a fazer frente às armas dos nazistas - exceto Ana Magnani que, em vez de conspirar como os outros, dana a gritar pelo macho dela: "Francesco! Francesco! Francesco!". Até que alguém lhe dá um tiro e, que alívio!, estamos livres da chata.
Mas há ainda uma hora e tanto de filme pela frente, sendo que a personagem principal é um padre, ajudado por um batalhão de crianças órfãs. Acabam traídos por um megera que,
desconfio, era homem - ou, no mínimo, um travesti brasileiro. Reparem só! Já havia traveco brazuca lá nessa época?
quarta-feira, 12 de março de 2008
Série "Conversas de Bar" - Tarkovski
Quer parecer o mais bacana da turma cinéfila? É, meu amigo, a coisa não é fácil, vai ter que ver muito filme e beber muito café.
Ou você pode poupar (agora mesmo!) essa trabalheira toda decorando algumas poucas palavras e conceitos, daqueles que impactam qualquer um no meio do gole da cerveja.
Segue ao final do post o número da minha conta bancária.

Ah, Andrei Rublev... 205 minutos do que dizem ser o melhor filme soviético (não é nem europeu, é russo...) da história, né? E nenhuma, mas nenhuma mesmo, cena daquelas malucas/frenéticas à lá Eisenstein que fazem o olho de qualquer um acordar...
E aí, como emplacar? Simples, fácil, e ainda vai te dar uma aura cult e pop ao mesmo tempo - diga algo mais ou menos assim: "o filme pode ser resumido, em poucas palavras, com algo como (parafraseando um super-herói famoso - se parafrasear não for pegar pesado, claro, analise as pessoas à sua volta) com grandes poderes vêm grandes responsabilidades".
Pronto, não foi rápido e indolor? Nem pra contar como o primeiro Corleone morre você demora menos tempo!


Stalker?
Não tenha medo só porque metade da equipe morreu pra fazer esse filme. Tudo que você tem que dizer pras pessoas é: "vocês prestaram atenção ao começo e ao final do filme?". Depois disso, como a maioria vai dizer que não (porque como diabos lembrar de algo de um filme assim, convenhamos), é só tascar um "o que Tarkovski quer dizer em Stalker, e não nos esqueçamos de que seu cinema é muito ligado às questões espirituais, e que por isso ele foi muito perseguido na antiga URSS, é que Deus é amor". Muita gente vai achar que você está inventando. Seja intransigente e cite o milagre do copo na cena final (momento do filme em que o cérebro de todo mundo, caso tenha se sustentado até então, deve fundir sem chances de recuperação).

Já falamos do mais longo e do mais difícil, tá na hora do mais famoso.
Solaris é batata, não tem como errar e vai ser fácil de convencer as pessoas sem precisar fazer muita cara de sabido. "O que o filme nos mostra é que, mesmo quando nos distanciamos fisicamente, nunca saímos de casa". Se precisar, lembre as pessoas das duas cenas na casa do protagonista, a primeira com a água fluindo, a segunda com tudo parado.
Agora, se te perguntarem algo sobre O Espelho, seja sutil, use palavras como "reminiscências", "poesia audiovisual", "uma viagem para a qual não há palavras" e adicione tempero a gosto.
Se não funcionar é porque você não fez direito, confie.
Em breve trarei mais do mesmo pra emplacar em qualquer roda de boteco que fale sobre cinema cabeça, traduzindo para a linguagem coloquial alcoolizada obras como A Montanha Sagrada de Jodorowsky e O Processo de Joana D'Arc de Bresson. Vocês não perdem por esperar.
segunda-feira, 10 de março de 2008
VALENTE (THE BRAVE ONE)
Lançado diretamente em DVD no Brasil, Valente é a primeira parceria entre uma das melhores atrizes do cinema norte-americano e um diretor europeu de comprovado talento. À simples leitura de uma sinopse, pode até soar estranha a presença tanto de Jodie Foster quanto do diretor Neil Jordan, pois um resumo do filme pode levar ao engano de que nada mais é do que um Desejo de Matar feminino. E o erro de concepção não chega a ser condenável, uma vez que o enredo de Valente conta a história de uma mulher que se torna espécie de justiceira após ser atacada por marginais, situação que tirou a vida de seu namorado. A premissa básica, no entanto, subverte a lógica de produções como as da série estrelada por Charles Bronson, onde a sede de sangue era o grande motor da trama. Em Valente, como não poderia deixar de ser com estes envolvidos, o foco é o psicológico; em outras palavras, o interesse de Jordan, Foster e dos roteiristas Roderick Taylor, Bruce Taylor e Cynthia Morte é revelar como uma pessoa comum pode se transformar em uma assassina sem remorsos. Valente, como se pode perceber, não é um filme com enredo repleto de reviravoltas ou situações surpreendentes. Na verdade, a estrutura da trama é até bastante simples. A verdadeira força do filme é a jornada da personagem principal: a narrativa é sobre uma pessoa, não sobre uma história. Assim que o espectador entende esta diferença, Valente cresce exponencialmente. A trajetória de Erica Bain é construída com cuidado e sem pressa. Não há saltos no “tempo” e a platéia realmente compreende as ações dela. Não é preciso concordar, mas é fácil entender as razões que a levaram a fazer o que faz. Por ser focado basicamente no personagem, Valente só funcionaria com uma atriz capaz de carregar um papel com peso dramático. Neste sentido, ninguém melhor do que Jodie Foster. Sempre intrigante e talentosa, Foster entrega nova grande interpretação, trazendo a platéia para dentro de sua jornada e tornando-a convincente. A atriz consegue apresentar duas Ericas completamente distintas (a do início e a do final do filme) sem perder a credibilidade. A luta, o conflito interno da personagem quando realiza as ações da segunda metade de Valente, deixam claro que a antiga Erica ainda existe, mesmo que tenha sido “sufocada” pelos eventos que construíram aquela nova personalidade. É um belo trabalho de Foster, amparada por roteiro riquíssimo, que oferece uma personagem tridimensional e trágica. O ritmo é lento, especialmente no início, o que pode causar inquietação em alguns. Mas a cuidadosa (des)construção da personagem pedia por isso, assim como o relacionamento entre ela e o detetive (em bela atuação de Terrence Howard), também realizado de maneira convincente. Valente tem seus problemas, como uma desnecessária subtrama envolvendo a ex-esposa do detetive e alguns momentos que exigem boa vontade do espectador, mas ainda é um belo filme. Neil Jordan acerta ao não julgar sua protagonista e os atos realizados por ela e compõe uma obra interessantíssima e potente. Um filme de ação com pessoas reais.Nota: 8.0
quinta-feira, 6 de março de 2008
Margot no Casamento?

Será essa a tradução para Margot at the Wedding, o mais recente filme de Noah Baumbach, que conhecemos como co-roteirista de A Vida Marinha com Steve Zissou (juntamente com meu Anderson predileto, ou ainda como diz meu amigo Malafatus, o Anderson falso) e também por A Lula e a Baleia, este último escrito e dirigido por ele.
Estou aqui escrevendo este post sobre Margot justamente para entendê-la. Afinal de contas, ainda não consegui decidir se gostei ou não dela, e quando digo dela, entendam, do filme. E ela justamente parece contaminar a história com um tom de incerteza, já que sua personalidade forte e cambaleantemente confusa traz para o filme essa mesma energia. E o personagem com o qual eu mais me identifiquei foi justamente o de Jack Black, que vivia tranqüilo, até saber que fazia parte da família de Margot.

Particularmente gosto quando Nicole Kidman interpreta essas personagens não-arrematadas e com várias costuras abertas o suficiente pra que não se consiga entender bem o seu formato. Assim ela me parece mais interessante do que em papéis de diva. Diva, aliás, ela parece ser todo dia, e hoje em dia isso é ainda mais reforçado pela necessidade que a fez mudar algo nos próprios lábios, o que a está transformando em outra pessoa, já que estou começando a não reconhecê-la mais.
Mesmo achando estranho, consegui reconhecê-la (ainda) desta vez na pele da irmã mal-resolvida que consegue desresolver a todos: a irmã, a sobrinha, o filho, o marido, o cunhado e até os vizinhos. Todos são sugados para dentro do redemoinho Margot e mesmo sabendo disso, todos a amam. Talvez porque consigam enxergar a fragilidade que a fez tornar-se uma escritora que - como Baumbach – parece querer exorcizar seus dramas particulares e familiares através da escrita.
A ação é truncada como a mente da protagonista e oscila entre legal e chata, como o filme em si. Mas ainda assim é possível ter certeza sobre algumas coisas dentro dele: Mais uma vez Baumbach desenvolve um drama familiar complexo que não descarta nenhum dos elementos humanos mais conflitantes, como a relação entre pais e filhos, assim como entre irmãos; o casamento, a sexualidade juvenil e a madura, e os problemas (des)envolvidos com a aceitação do eu pelo outro.
Enfim, Margot at the Wedding nos propõe um bom exercício mental sobre as relações humanas. E também é interessante por duas questões: mostra um Jack Black menos engraçado e uma Nicole Kidman menos bonita.

quarta-feira, 5 de março de 2008
Bom Dia

Recomendo altamente esse filme bastante delicado do Ozu, um dos mestres supremos do cinema japonês (senão o maior deles). Saiu em dvd (daquelas edições piratas da magnus opus q a gente ama) faz um tempo já e deve estar mofando em muita locadora por aí, e muito injustamente (claro).
A sinopse na capa do dvd, apesar de estar certa, engana quem não conhece o filme. Sim, depois que foram proibidos de frequentar a casa de vizinhos pra ver o campeonato de luta livre, dois irmãos dum bairro suburbano de Tóquio fazem greve de silêncio para que seus pais comprem uma tevê. Mas isso não é o principal do filme, tanto que demora mais ou menos uns 40 minutos pra essa situação começar a acontecer mesmo (o q seria impensável num filme "normal", q a sua "história" só comece depois da metade do filme). O q interessa mesmo é a maneira como a famosa câmera de Ozu vai retratando de forma muito íntima e carinhosa o cotidiano daquelas pessoas, q está prestes a mudar com a modernização do Japão - o filme retrata aquela traumática passagem (de forma nada traumática, diga-se de passagem -- q trocadilho infame!) do Japão pós-guerra, em q os antigos costumes foram sendo substituídos por uma modernização vinda do exterior.

De forma carinhosa, mas ácida. Ozu não deixa passar batida nenhuma chance q tem de criticar as mudanças q ocorriam (o filme é do final da década de 50), e diz com todas as letras q a televisão é uma merda mesmo. E daquele jeito inteligente e bem humorado q é sempre bom ver - até porque não falta hj em dia os malas do "vale tudo" e do "povo consome o q quer, e vê o q quer, eles q escolhem" q defendem a televisão como se telenovela não fosse realmente uma maneira daqui ó (pega na orelha) de deixar todo mundo burro e calminho (cutucando onça com vara curta).
A beleza do filme está toda em sua simplicidade. A montagem precisa e limpa, as atuações tão próximas da realidade q são capazes de fazer o espectador esquecer q está vendo gente atuar (ao contrário de muita choradeira e estrelas mutantes devidamente oscarizadas - eu tô q tô hj!).
E, claro, o olhar do tatame, aquele q vem de baixo. Sim, o famoso ângulo q Ozu adotou e q o diferencia de todo mundo. Quem mais é capaz de filmar daquele jeito? Sinceramente, ninguém. É muito fácil botar uma câmera de baixo pra cima, ter uma pessoa autoritária gritando e transmitir a idéia de semi-deus q se quer passar pro público (o George Lucas entendeu isso direitinho e tá lá, pergunta pra qualquer nerd de verdade se o Darth Vader é flor q se cheire - não vale lembrar do sem graça q faz o papel na trilogia mais nova, blé). Agora, tô pra ver alguém conseguir transmitir um olhar tão especial de maneira tão direta e tocante. É tão bonito q só se pode comparar com a própria vida - e tem algo pelo qual as pessoas passam mais batido do q a própria vida? (um pouco de filosofia pseudo-oriental não faz mal a ninguém)

Então se vc se cansou de grandes planos ululantes, de extravagâncias cheeeias de significado e roteiros fajutos sobre meninas q não calam a boca e q só servem pra fazer as titias chorarem (libere a titia em vc, não tenha medo!), não tenha medo e alugue. Ozu vai se sentar ao seu lado no tatame e conversar com vc de maneira sincera, gentil e honesta, e se vc der ouvidos a ele e estiver disposto a trocar figurinhas (tô falando pra liberar a titia, vai me dizer q vc não tem nenhuma q fala assim...) de igual pra igual, nunca mais vai se esquecer daquilo q vcs falaram um pro outro.
E bons dias pra todo mundo.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Woody Allen 2
Ainda inseguro como cineasta, Allen não sabia direito onde colocar a câmera. Na dúvida, se cercava todas as possibilidades, filmando as cenas de diversos ângulos diferentes e deixando para decidir qual a melhor no momento da montagem. Ao fim de Um Assaltante bem Trapalhão, viu-se com um material filmado que não tinha fim, sem saber como dar àquilo uma lógica. Allen nunca escondeu que quem colocou a ordem na casa e salvou o filme, foi o montador Ralph Rosemblum, profissional que virou seu homem de confiança por todos os trabalhos que dirigiu ao longo da década seguinte.
Nessa primeira fase, Allen encontrou na paródia de determinados gêneros um ponto de partida. Uma espécie de muleta. Ele partia de algo conhecido, descontextualizava, subvertia os clichês, brincava com as tradições. Em Um Assaltante bem Trapalhão, a sátira recai sobre os filmes de gângster. Em Bananas, são os filmes políticos e românticos. Em O Dorminhoco, os filmes de ficção cientifica. Em todos eles, Allen personificou a figura do clown, aquele indivíduo deslocado de seu ambiente e com forte sensação de inferioridade e fragilidade em relação aos demais (os óculos servem de apoio para a fixação dessa imagem).
A partir de A Última Noite de Boris Grushenko há uma nítida mudança de tom. Revi um trecho do filme ontem, durante a aula, e é incrível como as piadas passam a ser mais bem elaboradas. A graça do texto, muito mais sofisticada. Se antes, eu humor bebia na fonte das comédias dos anos 10 e 20, de fácil identificação pela platéia, agora sua inspiração passava a ser a literatura clássica russa e os filmes de Ingmar Bergman. Os diálogos tratavam sobre a morte, filosofia e a existência de Deus. O filme passava a exigir do público um certo grau de erudição.
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa marca o começo de uma nova fase da obra de Allen. Ele passará a adotar a figura do novaiorquino, judeu, neurótico, hipocondríaco, envolto em seus problemas familiares e sentimentais. O personagem se entrelaçará com o artista. O humor será muito mais inteligente, perspicaz e sofisticado. O Woody Allen que conhecemos hoje, nascia aí.
Monty Python's Flying Circus e a menina do Frankenstein
(Aliás, dica pra quem tiver dinheiro sobrando ou quiser juntar pra comprar por mais barato: tá em promoção a caixa completa no Amazon, e mesmo com o imposto - caso vc tenha o azar deles pegarem seu pacote - vai sair mais barato do que comprar a coleção completa assim em separado por aqui)
Não tem jeito, ver eles em ação é como escutar Jimi Hendrix em Woodstock ou algo desse nível. Eu já perdi a conta de quantas vezes já vi os primeiros episódios (em compensação, os outros eu nunca vi até agora), e mesmo assim sempre choro de dar risada.
Agora planejo, assim que uma graninha extra entrar, comprar também as edições especiais do Vida de Brian e do Cálice Sagrado (este último bastante chupinhado de outra pérola, O Exército de Brancaleone).
E hoje revi o Frankenstein clássico da Universal. Tudo aquilo lá já faz parte da nossa cultura, não tem como escapar, então nem vou falar muito do Karloff, da maquiagem e por aí vai.
O que me choca nesse filme toda vez que revejo é a cena do Frank com a menina na beira do lago. Primeiro porque a clareza, simplicidade e objetividade da cena toda é brilhante - é exatamente aquilo que todos os filmes deveriam fazer (e que mesmo no Frankenstein não acontece em toda cena): o subjetivo surge de algo direto, de ações que não levantam questões superficiais sobre o que está acontecendo ou coisas do tipo, aquela névoa que muita gente acha que é sinal de filme inteligente. Não, assim como tudo que é mais sagrado no cinema, o que há naquela cena de brilhante é o que se estabelece entre as personagens, a relação entre tudo que aparece nela e o que aquilo suscita em quem está assistindo. Segundo porque o desfecho da cena, de uma crueza que é digna de um Samuel Fuller, com a menina sendo jogada no lago, sério, é tipo de coisa que mesmo hoje muita gente por aí não teria culhão de fazer (ou teria que mudar por imposição). E segue-se outro momento brilhante, que é o pai carregando a menina no colo no meio da festa na vila. Esse é um momento tão visionário, tão especial, que ecoa claramente até em várias coisas que um Glauber Rocha, um Pasolini iriam buscar lá pra década de 60.
(Ah, se pelo menos não houvesse aquele furaço no roteiro logo no final da sequência, com o pai anunciando o assassinato do nada...)
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Woody Allen
Como cinéfilo, minha primeira reação aos filmes do Woody Allen foi de rejeição. Com o tempo, a gente vai dando uma segunda e uma terceira chance e aqueles filmes antes odiados passam a fazer sentido. O que não tinha graça, passa a ter. Como num passe de mágica.
O Woody Allen nasceu em 1935, o que lhe dá 73 anos (ainda incompletos). Tá bem velhinho. Ele deve ter dirigido uns 35 filmes. Considerando que sua carreira já tem 40 anos começou em 1966, com a comédia What´s Up, Tiger Lily?, é sinal que ele é certamente um dos artistas mais prolíficos de Hollywood, com um média inimaginável de quase um filme por ano.
Acho difícil existir um diretor que manteve a qualidade de suas obras por tanto tempo (talvez o Bergman consiga atingir esse padrão de excelência). Allen dirigiu vários filmes entre os anos 70, 80 e 90, quase eles bons ou muito bons. A crítica costuma destacar seus trabalhos mais tradicionais, como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan. Essa mesma crítica despreza a obra mais séria do diretor, como Interiores e A Outra, bem como os filmes realizados ao longo dos anos 90.
Gozado. Claro que Annie Hall e Manhattan são belos filmes (gosto mais do segundo). Mas não entendo como outras de suas obras-primas são descartadas assim tão facilmente. O período da filmografia da Allen que mais me agrada é aquele que vai da metade dos anos 80 à outra metade dos anos 90. Num período de 10 anos, o cara não errou praticamente nada! A Rosa Púrpura do Cairo, Hannah e Suas Irmãs, A Era do Rádio, A Outra, Crimes e Pecados, Simplesmente Alice, Maridos e Esposas (quando é que alguma distribuidora vai lançá-lo em DVD?), Um Misterioso Assassinato em Manhattan, Tiros na Broadway, Poderosa Afrodite, Todos Dizem Eu Te Amo e Descontruindo Harry. Qual diretor pode ostentar tanta qualidade em sua filmografia?
No entanto, como tudo na vida um dia chega ao fim, já tá mais do que evidente que esse nível de excelência mantido pelo Woody Allen despencou na última década. De Celebridades a Scoop (tirando aquela obra-prima chamada Match Point), ele não dá uma dentro. Se antes eu corria ao cinema de Santos mais próximo para ver o novo filme dele (o qual, provavelmente, estava estreando com dois anos de atraso), hoje, espero tranquilamente seu lançamento em DVD ou sua exibição na TV a Cabo. Um deles, Melinda e Melinda, não vi até hoje. O Escorpião Jade, Igual a Tudo na Vida e Dirigindo no Escuro são simplesmente tétricos, indignos de um artista como ele.
Penso que o grande problema do Woody Allen é o pouco tempo que sepera cada um de seus filmes. Se essa produtividade não era uma trava para a sua criatividade nos anos passados, hoje fica nítido que a pressa vem gerando filmes menos inventivos, personagens rasos (o que nunca foi a sua marca), piadas menos inspiradas. A impressão que dá é que ele pega um amontoado de piadas que deve ter arquivadas, junta tudo e tenta transformar num longa-metragem. Só que a coisa não dá liga. Ele deveria se afastar da atuação e se dedicar exclusivamente à direção (como fez em Match Point) e, principalmente, elaborar melhor os roteiros e as tramas.
Quem sabe assim teríamos nosso Woody de volta...
Ardil 22
Imperdível.
O sucesso do livro foi tanto que a expressão "Catch 22" se incorporou aos dicionários da língua americana. Expressa qualquer paradoxo ou situação ilógica por que passamos. No livro, soldados americanos estão alocados em Pianosa, uma ilha perdida no meio da Europa. Há uma regra que permite que os combatentes peçam licença definitiva do exército se alegarem que estão loucos. Mas o fato de a pessoa se considerar um louco é a prova justamente de que ela não está. Esse é o Ardil 22.
A adaptação do romance foi lançada em 1970 e dirigida pelo Mike Nichols. O protagonista, Capitão Yossarian, foi interpretado pelo Alan Arkin. Vi Ardil 22 há muito tempo, ainda em VHS. Não lembro de praticamente nada. Não curti muito. Não sei se o resultado ficou meio pesado ou se as piadas não funcionavam, o fato é que não "entrei" no filme. Agora, tendo lido o livro, vejo que é um material praticamente infilmável. Não há uma história propriamente dita. São apenas cenas (algumas bizarras e sem sentido) e personagens (vários) que vão desfilando capítulo a capítulo à sua frente, sem qualquer preocupação com um fio narrativo. Mesmo assim, senti vontade de rever o filme.
Pelo que li, Ardil 22 foi um dos maiores fracassos da época. Custou muita grana mas fez água nas bilheterias. Alguns tentaram explicar a rejeição do filme pelos americanos por causa do momento do país, que ainda vivia o Vietnã. Ninguém estava disposto encarar uma comédia ambientada numa guerra. Não sei se isso explica muita coisa, já que M.A.S.H, que Robert Altman filmou no mesmo ano e que trata de tema semelhante (muda-se apenas a guerra), foi sucesso de público e crítica.
Mike Nichols, o diretor, devia estar com tudo na época. Vinha do teatro, onde já era respeitado. Em 1966, adaptou a peça de Edward Albee, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, levando 5 dos 13 Oscar para os quais foi indicado. No ano seguinte, ele mesmo ganhou o seu Oscar pela direção de A Primeira Noite de um Homem, excelente comédia, mas que sempre funcionou mais nos EUA do que aqui no Brasil. Nichols devia estar com tudo. Ele sabia que teria dinheiro de sobra pra torrar no projeto que bem entendesse. Quis encarar o desafio de adaptar o livro do Joseph Heller, desejo de 10 entre 10 diretores da época. Acho que o roteiro era do Buck Henry, que já tinha escrito A Primeira Noite de um Homem. Pelo jeito, o resultado não agradou nem a gregos nem a troianos. De qualquer forma, Nichols se recuperou no ano seguinte com Ânsia de Amar, belo retrato do homem americano dos anos 60 e 70, estrelado pelo Jack Nicholson. Ao longo dos anos 90, Nichols ficou meio longe do cinema. Fez alguns filmes para a TV, dentre eles Angels in America. Agora, depois de Closer e Jogos do Poder (que ainda não vi) parece ter voltado à moda.
Ardil 22. Para quem não leu, faça-o. Para quem já viu o filme, como eu, creio que uma revisão será muito bem vinda.
Onde os Velhos Não Têm Vez (o livro)
Não sei se o problema é da tradução (feita por Adriana Lisboa, da Editora Alfaguara) ou do próprio original. Mas o texto tem uma escrita das mais pobres, cheios de "e", "e", "e", "e". Nunca vi algo parecido. Sou obrigado a repruzir um trecho pra vcs terem uma idéia do que eu estou falando:
"Desceu a escada dos fundos E atravessou o estacionamento até o carro de Wells E pegou a CHAVE da porta no molho de CHAVES que Wells levava E abriu a porta E verificou dentro do carro na frente E atrás E debaixo dos assentos. (...) Deu a volta até o lado do motorista E abriu o capô E olhou dentro do compartimento do motor E depois fechou o capô E ficou olhando para o hotel."
Mais à frente:
"Ele não sabia o que estava procurando mas não teve que procurar"
Será o Cormarc escreve tão mal assim ou o problema é da nossa tradução?
De todo o modo, para aqueles que pensam que ñ é possível fazer um filme melhor que um livro, Onde os Fracos Não Têm Vez é bem melhor que o romance. Eu já gostava do filme. Depois de ter lido a história na qual ele se baseou, passei a gostar ainda mais.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Contagem Regressiva
Ressaca
Segundo os jornalistas que apuraram a reportagem, havia um temor entre os membros da Academia de que acontecesse o mesmo do ano retrasado, quando "Crash" venceu "Brockeback Mountain", estabelendo um novo patamar de erro para o prêmio: o da covardia.
Sugiro outra explicação, mais singela: ninguém viu os filmes, fiaram-nos nos críticos e votaram no escuro - as bilheterias dos filmes indicados era baixíssima.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
O que Javier Bardem achou da queda da audiência do Oscar
Baixa audiência
Os analistas de plantão estão culpando os vencedores europeus (oi?) e o pouco entusiasmo do público estadunidense com os concorrentes.
Eu tenho uma teoria diferente: a grande massa assiste ao Oscar pra quê? Pra ver quem ganhou o troféu de melhor assistente de câmera? Não mesmo. O saboroso é ver aquela atriz do momento usando um gigantesco colar de diamantes e um poderoso vestido Gucci que poderá ser copiado na costureira mais próxima. Ou ver aquele ator bacanudo levar aquela atriz em ascensão e dar margem pra todo o ti-ti-ti.
A questão é que a mídia anda saturando tanto a gente (eles, muito mais, que se alimentam dessa "cultura") de fofocas de celebridades, sejam em tablóides, em revistas semanais, em canais de televisão, que a gente já conhece intimamente as bebedeiras e pegações da Lindsay Lohan (musa!), a falta de hábito da Britney Spears de usar calcinhas, as mancadas da Paris Hilton, cada um dos filhos do casal Brangelina e por aí vai. Oscar? É tudo fake, tudo encenação.
O povo quer vida real e isso os paparazzos dão de sobra.

